Por Marcelo Lemos
Uma e outra vez, e mais outra, sempre acaba chegando até nós questões relacionadas as famosas listas de “pode não pode” que os cristãos evangélicos ganham deste ou daquele pastor – ou líder - bem intencionado. Quando sou confrontado com questões assim, sinto-me extremamente injustiçado, risos. Por um lado, sempre acabo sendo acusado de 'liberal', enquanto certa turma situada em outras bandas, me acusa de 'legalista'.
Não se trata de um paradoxo, mas de ser erroneamente interpretado por alguns e por outros. Daí a importância de esclarecer já de inicio: eu sou um Teonomista (Saiba mais aqui). Para quem não está familiarizado ao termo, explico que isso significa que eu creio que a Lei de Deus jamais foi abolida por Cristo, como sugerem alguns, aos quais denominamos 'antinomistas'. Aqui se explica alguns me confundirem com os legalistas, já que me imaginam pregando uma salvação baseada em méritos e boas obras. Mas, justamente por ser Teonomista, não aceito qualquer regra que não esteja presente na Lei de Deus, e com isso, desprezo todas as listas humanas quando ao que “pode não pode” na vida cristã – e aqui, pasmem, está a explicação para a acusação de 'crente liberal'.
Dito isto, sentencio: a) Não é legalismo dizer que o cristão está obrigado a obedecer a Lei de Deus; b) Não é liberalismo dizer que cristão não tem obrigação de obedecer regras humanas.
I – O PRINCÍPIO DA TEONOMIA
Em resumo, a Lei de Deus exige de cada homem (Êxodo 20):
“Então falou Deus todas estas palavras, dizendo: Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.
[1] Não terás outros deuses diante de mim.
[2] Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás diante delas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, e uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.
[3] Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão.
[4] Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás todo o teu trabalho; mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia do sábado, e o santificou.
[5] Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá.
[6] Não matarás.
[1] Não terás outros deuses diante de mim.
[2] Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás diante delas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, e uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.
[3] Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão.
[4] Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás todo o teu trabalho; mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia do sábado, e o santificou.
[5] Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá.
[6] Não matarás.
[7] Não adulterarás.
[8] Não furtarás.
[9] Não dirás falso testemunho contra o teu proximo.
[10] Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo”.
Esta é a síntese, o resumo da Lei de Deus. Refiro-me, evidentemente, a Lei Moral de Deus, e não aos preceitos cerimoniais do Antigo Testamento, que também eram incluídos na “Lei”. Sendo que Cristo não aboliu a Lei, antes a interpretou adequadamente, livrando-a das tradições dos fariseus, segue-se que a mesma permanece obrigatória a todos os cristãos, em todos os lugares, em todos os tempos.
De certo moto, é muito incomodo saber que tal posição é vista com estranheza por boa parte dos cristãos evangélicos-reformados de nossos dias. Tem-se a impressão de que pregamos alguma heresia, quando na verdade, a Lei de Deus sempre foi pregada no Cristianismo histórico, inclusive pelos Reformadores. Por exemplo, me parece impossível ler a Confissão de fé de Westminster, e não se dar conta da perspectiva teonomica que a dirige.
“A lei moral obriga para sempre a todos a prestar-lhe obediência, tanto as pessoas justificadas como as outras, e isto não somente quanto à matéria nela contida, mas também pelo respeito à autoridade de Deus, o Criador, que a deu. Cristo, no Evangelho, não desfaz de modo algum esta obrigação, antes a confirma” (CFW, Capítulo XIX, Artigo V).
Eis aqui o principio da perspectiva teonomista: todos os homens estão obrigados a obedecerem a Lei de Deus, não por um Pacto de Obras, mas como “regra de vida”, sendo-nos útil para “conter (nossa) corrupção, pois proíbe o pecado”. (CFW. XIX, VI).
II – O PRINCIPIO ANTI-LEGALISMO
O Legalismo é diferente da Teonomia, e pode se manisfestar pelo menos de duas formas. Primeiro, o legalismo pode ser uma falsa Teonomia; refiro-me aqueles que obrigam a obediência a lei de Deus como um meio de se alcançar a Justificação. Ainda que as obrigações se mantenha apenas naquilo que é ordenado na Lei de Deus, trata-se de legalismo, já que se apega a uma salvação meritória, por obras.
Mas, há também, um segundo tipo de legalismo que rejeita a Teonomia, mas acrescenta um amontoado de regras morais que não podem ser encontradas nas Escrituras. O primeiro, apega-se a Lei de Deus como caminho para a Justificação; este, rejeita a Lei de Deus, mas acrescenta um monte de outras regras.
Aqui entram as mais incríveis listas de “pode não pode” presentes entre muitos evangélicos. Algumas regras são até bem intencionados, outras, parecem reflexo de mentes doentias... Mas, mesmo entre as “bem intencionadas”, tudo que existe é legalismo: proibições quando a cerveja, tabaco, mega-sena, nadar na praia, ir ao cinema ou teatro, e assim por diante.
Meu posicionamento nestas questões, é que faz muitos me tomarem por “liberal”. Nos 39 Artigos de Religião, confissão oficial do Anglicanismo, encontramos o seguinte princípio da Reforma Protestante: “A Escritura Sagrada contém todas as coisas necessárias para a salvação; de modo que tudo o que nela não se lê, nem por ela se pode provar, não deve ser exigido de pessoa alguma seja crido como artigo de Fé ou julgado como requerido ou necessário para a salvação” (Artigo VI).
A Bíblia contém tudo o que é necessário para a salvação, de modo que aquilo que nela não se encontra registrado, não pode ser imposto como regra de fé ou de conduta para os crente. Claro, que posso, por exemplo, me abster de vinho ou tabaco, e julgar isso de grande proveito para meu bem-estar espiritual e físico, mas não posso impor a mesma regra aos demais, pois não se trata de mandamento escriturístico.
Isso não me torna um liberal, isso apenas revela minha intenção de pregar e viver uma moral genuinamente cristã, baseada na Bíblia Sagrada. Se alguém não pode condenar algum ato meu a luz das Escrituras, então não tem o direito de fazê-lo com base em qualquer outra coisa.
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